Manual de Orientação Familiar & Assistencial

Guia Prático da Atenção e
Internação Domiciliar

Conteúdo completo para compreender as normas da ANVISA (RDC 917/2024), direitos junto aos planos de saúde e SUS, segurança do quarto, fonoaudiologia e transição hospitalar segura.

Base: RDC 917/2024 ANVISA Atos Privativos COREN Diretrizes ANS & SUS
Capítulo 1

O que é Home Care de Fato?

Muitas famílias deparam-se com o termo Home Care de forma abrupta, dentro de uma UTI ou após um diagnóstico de AVC, cirurgia ortopédica extensa ou agravamento de doença crônica. No Brasil, a assistência domiciliar é regulamentada pela Resolução RDC nº 917/2024 da ANVISA (marco regulatório atualizado que revogou a antiga RDC 11/2006), estabelecendo os requisitos técnico-sanitários e dividindo os serviços em duas modalidades distintas:

Atenção Domiciliar (AD)

Voltada à reabilitação e ao acompanhamento ambulatorial programado. O paciente reside com autonomia ou apoio de familiares/cuidadores e recebe visitas periódicas de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e nutricionistas.

Internação Domiciliar (ID)

Substituição formal de um leito hospitalar. Implantação de suporte intensivo ou semi-intensivo na residência, incluindo plantão contínuo de técnico de enfermagem (12h ou 24h), aparelhos de suporte ventilatório (BiPAP/VMI), bombas de infusão contínua e oxigenoterapia.

Objetivo Terapêutico Central: O propósito do atendimento domiciliar sob a RDC 917/2024 é restabelecer o maior grau possível de funcionalidade, assegurando controle de riscos sanitários, proteção contra infecções hospitalares e promoção da convivência sociofamiliar.
Capítulo 2

Cuidador de Idosos vs. Equipe de Enfermagem

O principal motivo de conflitos e negativas de planos de saúde decorre da confusão entre apoio às atividades de vida diária (higiene, conforto, alimentação) e atos privativos de enfermagem. A legislação brasileira (COREN e Ministério do Trabalho) delimita com precisão o papel de cada um:

Atribuição / Procedimento Cuidador (Familiar ou Contratado) Técnico de Enfermagem (COREN)
Higiene, banho e troca de fraldas Função principal e privativa do cuidador Atua em auxílio apenas se houver dreno/acesso instável
Aspiração traqueal (cânula TQT) Vedado por lei (Risco de asfixia) Ato técnico privativo de enfermagem
Dietas por Sonda (GTT ou SNE) Apenas alimentação oral habitual sem engasgos Manejo de bombas de infusão e lavagem de sonda
Medicação Injetável (Veia/Músculo) Proibido administrar Aferição de dose, diluição e infusão endovenosa
Curativos de feridas profundas Apenas higiene superficial sem técnica cirúrgica Curativos estéreis e manejo de coberturas especiais
Entendimento do STJ: A Justiça brasileira consolidou que os planos de saúde não são obrigados a custear serviços com natureza estritamente de cuidador social ou companhia. Para exigir a cobertura de plantões técnicos de enfermagem, é indispensável a comprovação de atos clínicos invasivos de alta complexidade.
Capítulo 3

Fonoaudiologia e a Prevenção da Broncoaspiração

A fonoaudiologia domiciliar é um dos pilares mais decisivos na desospitalização. Pacientes pós-AVC, idosos frágeis ou portadores de Parkinson e demências frequentemente desenvolvem disfagia (dificuldade de engolir). O alimento ou saliva desvia para os pulmões, provocando pneumonia aspirativa — a principal causa de reinternações em UTI e mortalidade no domicílio.

Deglutição Segura

Exercícios motores para fortalecer a musculatura da garganta e manobras posturais para evitar que o alimento entre na via aérea.

Desmame de Sondas

Transição técnica e segura da sonda nasoenteral (SNE) ou gastrostomia (GTT) de volta para a alimentação prazerosa por via oral.

Comunicação Alternativa

Uso de pranchas visuais e recursos adaptados para pacientes traqueostomizados ou afásicos dialogarem com a família.

Consistência Alimentar: Como Funciona a Escala IDDSI

O protocolo internacional IDDSI padronizou a textura das dietas para proteger quem tem disfagia. O fonoaudiólogo define em qual degrau o paciente se encontra:

Nível 0: Líquido Fino (Água pura, chá, café - maior risco de escape pulmonar) Risco em Disfagia
Nível 1 e 2: Levemente a Suavemente Espessado (Textura de néctar) Uso de Espessante
Nível 3 e 4: Moderadamente a Extremamente Espessado (Textura de mel e pudim) Homogêneo
Nível 7: Dieta Regular Normal (Exige mastigação completa e deglutição sem risco) Autonomia
Capítulo 4

Segurança Ambiental e Adequação do Quarto

A RDC 917/2024 da ANVISA reforça a necessidade de adequação prévia da infraestrutura física e sanitária da residência antes da admissão do paciente:

Tomadas Aterradas e Rede Estável (NBR 14136)

Concentradores de oxigênio, BiPAP e aspiradores traqueais exigem tomadas de 10A/20A aterradas. Recomenda-se no-break ou suporte de emergência para pacientes dependentes de ventilação mecânica.

Circulação Livre ao Redor da Cama

A cama hospitalar nunca deve ser colada na parede. Deve haver espaço para circulação de profissionais pelos dois lados, facilitando trocas de curativo, banho e manobras de emergência.

Eliminação Rígida de Fatores de Queda

Retirada total de tapetes soltos, fios no chão e instalação de iluminação noturna com sensor entre o quarto e o banheiro.

Bancada de Assepsia e Descarte Seguro

Mesa limpa dedicada para preparação de medicações com álcool em gel 70%, luvas descartáveis e caixa amarela coletora de perfurocortantes (Descarpack) conforme gerenciamento de resíduos da ANVISA.

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Capítulo 5

O Passo a Passo da Desospitalização Segura

1
Relatório Circunstanciado do Médico Assistente

O médico do hospital emite relatório justificando por que o paciente pode sair da internação e discriminando detalhadamente os aparelhos, medicamentos e número de visitas necessários.

2
Avaliação de Captação no Hospital

O enfermeiro auditor/captador do Home Care visita o paciente no leito para verificar estabilidade hemodinâmica e aplicar as escalas oficiais (NEAD/ABEMID).

3
Implantação Antecipada de Equipamentos na Casa

Cama hospitalar, oxigênio, aspirador traqueal - quando forem necessários -, dietas e insumos chegam à residência 24 a 48 horas antes da alta para que tudo esteja testado.

4
Remoção em Ambulância e Acolhimento Domiciliar

Transporte regulado em ambulância simples ou UTI móvel até o domicílio, com recepção pela equipe técnica para conferência dos primeiros procedimentos.

Capítulo 6

Dúvidas Frequentes das Famílias (FAQ)

O plano de saúde pode cancelar ou suspender o Home Care de repente?

Não. A suspensão arbitrária e sem prévia comprovação de melhora clínica é ilegal. Qualquer desmame ou redução de escala exige parecer médico e nova avaliação de elegibilidade devidamente fundamentada.

Home Care é somente para pessoas em fase terminal?

Mito. A imensa maioria dos planos foca em reabilitação funcional ativa com meta de alta: restabelecer a fala, a marcha, o desmame de traqueostomia e a retirada de sondas.

Quem fornece as fraldas e medicamentos de uso contínuo?

Na Internação Domiciliar (substitutiva de hospital), o plano ou SUS é responsável pelas medicações injetáveis e insumos que seriam fornecidos no hospital. Medicamentos orais de rotina costumam ser adquiridos em farmácias comuns para maior economia.

O SUS tem atendimento domiciliar gratuito?

Sim, através do programa Melhor em Casa. O SUS atua com equipes EMAD e EMAP com visitas programadas e capacitação da família, sem plantões de 24h contínuos.